22 Mar 2018 | domtotal.com

Darcy Ribeiro: que falta ele nos faz!

Mineiro de Montes Claros, Darcy era um intelectual preocupado com os destinos da nação.

Na questão indigenista, Darcy Ribeiro foi discípulo do Marechal Rondon.
Na questão indigenista, Darcy Ribeiro foi discípulo do Marechal Rondon.

Por Jorge Fernando dos Santos

Muitos dos problemas sociais que hoje enfrentamos no Brasil decorrem da falta de investimentos em educação e cultura. A péssima qualidade do nosso ensino público apontada por organismos internacionais contribuiu para o atual estado de violência, desagregação e analfabetismo funcional em que se encontra a sociedade brasileira, sobretudo no Rio de Janeiro.

A ironia é que foi justamente no Rio, na década de 1980, que o governo de Leonel Brizola implantou os Centros Integrados de Ensino Público (CIEPS), o mais ousado projeto de educação básica da história nacional. A ideia foi do vice-governador Darcy Ribeiro, sociólogo, antropólogo, educador e escritor falecido em 20 de fevereiro de 1997. Vinte anos depois, o país se penaliza com a falta que ele nos faz.

Mineiro de Montes Claros, Darcy era um intelectual preocupado com os destinos da nação. Ao contrário de muitos, era um pensador criativo e não um repetidor de jargões de outros autores. Socialdemocrata de boa estirpe, ele se empenhava na construção de um futuro melhor para crianças e jovens. Sabia como poucos que o fenômeno das favelas resulta do desleixo do estado para com os pobres e miseráveis.

Na questão indigenista, Darcy Ribeiro foi discípulo do Marechal Rondon. Na educação, muito aprendeu com Anísio Teixeira. Ao lado deste, foi um dos fundadores da Universidade de Brasília, da qual seria o primeiro reitor. Autor de vários livros – entre eles “O povo brasileiro” –, foi ministro da Educação e chefe da Casa Civil de João Goulart, ajudou a criar o Serviço de Proteção ao Índio e idealizou a Universidade Estadual do Norte Fluminense.

Café, almoço e jantar

Os CIEPS consistiam num projeto pedagógico moderno e revolucionário. A ideia era dar educação e assistência em tempo integral aos alunos, com ensino formal, assistência médica e atividades recreativas, incluindo esportes e cultura. Na escola, as crianças tinham café da manhã, almoço e jantar. Para o sossego dos pais, elas eram mantidas ocupadas, alimentadas e estimuladas ao aprendizado, longe da vadiagem e do narcotráfico.

O problema é que o projeto idealizado por Darcy incomodou a burguesia conservadora, que jamais se preocupou com a pobreza. Sem visão de futuro, pessoas das classes média e alta não perceberam que é na infância que se forma o cidadão. Acusados de populistas, Brizola e Darcy não encontraram o devido apoio da sociedade carioca para desenvolver o ousado projeto, que acabou desativado por seus sucessores.

Brizola já tinha dado provas de se preocupar com o futuro. Como prefeito de Porto Alegre e governador do Rio Grande do Sul, investiu em educação e promoveu a reforma agrária. Por essas e outras foi considerado subversivo, sendo duramente perseguido pelos militares. O mais curioso é que seu carisma assustava a cúpula do antigo MDB, que pediu ao presidente João Figueiredo para não anistiá-lo. Felizmente, o general turrão bateu o pé.

Em 1980, logo após a anistia, negaram-lhe a legenda do antigo PTB. Este foi entregue de mão-beijada a Ivete Vagas, sobrinha-neta de Getúlio. Naquele mesmo ano, Lula fundava o Partido dos Trabalhadores, que de certa forma ofuscaria o herdeiro do trabalhismo, que articulara a criação do PDT. Há quem diga que o PT foi coisa da igreja em conluio com Golbery do Couto e Silva justamente para afastar a “ameaça comunista” representada por Brizola, Arraes, Prestes, Julião, Bezerra e outros repatriados.

Seja como for, há que se reconhecer que sem Darcy Ribeiro talvez Brizola não tivesse criado um projeto educacional tão ousado quanto os CIEPS. Pena que as elites e os partidos que lhes faziam oposição não compreenderam a importância da iniciativa. Ou, pior ainda, compreenderam e justamente por isso trataram de sabotá-la. Brizola e Darcy foram combatidos à direita e à esquerda por aqueles que nunca desejaram o bem do Brasil.




Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 43 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual Editora), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (Edições SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração Editorial), finalista do Prêmio da APCA em 2015.
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