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30/05/2017 | domtotal.com

A NCG na construção civil

As empresas e projetos de engenharia quando fracassam têm o seu fim inicialmente selado não por questões econômicas, mas por questões financeiras.

A questão crítica é a gestão da liquidez financeira das obras.
A questão crítica é a gestão da liquidez financeira das obras. (Reprodução)

Por José Antônio de Sousa Neto*

A administração da Necessidade de Capital de Giro (NCG) e do Capital de Giro que financia a NCG é um desafio na gestão de toda organização e as empreitadas de engenharia não são uma exceção a regra. Na realidade, pelas características técnicas, operacionais e de mercado na construção civil, este desafio costuma ser ainda maior e a sua gestão um elemento crítico à própria viabilização e implantação dos projetos até a sua conclusão. O mais surpreendente neste processo é que com espantosa frequência o corpo técnico responsável pela implantação das obras (desde as pequenas até grandes projetos de engenharia) negligencia esse fundamental elemento da gestão de projetos. E aqui estamos falando não apenas dos gerentes e diretores de obra, mas também dos chamados gerentes e diretores de contrato responsáveis, sobretudo, pela gestão comercial da empreitada e a relação com o cliente contratante.

No ímpeto de atender/cativar o cliente, a priorização de questões comerciais em detrimento da realidade operacional e financeira da execução da obra, a gestão do projeto pode levar a empreitada a sérios problemas de liquidez ou até mesmo, infelizmente e com alta frequência, à insolvência do projeto e seu abandono. Na verdade, as empresas e projetos de engenharia quando fracassam têm o seu fim inicialmente selado não por questões econômicas, mas por questões financeiras embora estas últimas evidentemente sejam consequências do próprio planejamento e opções de ordem técnica e operacional na implantação do projeto.

A questão crítica é a gestão da liquidez financeira das obras, liquidez sendo aqui compreendida como o equilíbrio entre a entrada e saída dos recursos necessários à execução do projeto até a sua conclusão. O descasamento entre a saída e entrada de recursos não é em si mesmo um mal desde que possa ser financiado de forma sustentável ao longo de toda a empreitada. Na figura que se segue apresentamos os elementos básicos da administração de liquidez e da diferença conceitual e prática entre o ciclo econômico e o ciclo financeiro de uma obra.

Fonte: Haroldo Mota e José Antônio de Sousa Neto

O Ciclo Econômico inicia-se com a compra dos insumos para a produção de bens ou serviços e encerra-se com a venda ou entrega do que foi produzido. O Ciclo Financeiro inicia-se com o pagamento dos insumos comprados e encerra-se com o recebimento pela venda do que foi produzido. A princípio, quanto maior for o Ciclo Econômico, maior será o Ciclo Financeiro.

Fonte: Haroldo Mota e Jose Antonio de Sousa Neto

Na construção civil não é difícil visualizar como este desafio de gestão da liquidez aparece no nascedouro dos empreendimentos:

. O início das obras implica na mobilização de recursos humanos e materiais. Quanto maior a empreitada maior a mobilização destes recursos. Um exemplo disto são os custos relacionados à implantação de um canteiro de obras. Se o contratante não faz um adiantamento ao contratado para cobrir esta mobilização inicial de recursos, o projeto e a empresa responsável apresentarão um “furo de caixa” que demandará a utilização de capital próprio ou de terceiros. E isso evidentemente tem custos!

. Se o cronograma físico financeiro do projeto/da obra não for equilibrado, os descasamentos de entradas e saídas de recursos podem comprometer, até de forma irreversível, a saúde financeira do projeto e da empresa executora. Isto é fácil de constatar em inúmeros projetos de engenharia no Brasil, sobretudo aqueles que têm como contratante o poder público. Os constantes atrasos de pagamento pelas etapas da obra cumpridas ao longo do projeto podem gerar fluxos de caixa muito negativos que deixem ao executor apenas a opção de suspender a execução da obra. O problema é que muitas vezes esta solução paliativa não resolve, seja pelos déficits de caixa já criados, seja pelos custos materiais (estoques e equipamentos dentre eles) e de recursos humanos necessários à manutenção de um canteiro de obras mobilizado e em situação de compasso de espera. Vejam os leitores que estas decisões não são fáceis. Se o cliente é um cliente importante certos “sacrifícios” na gestão da NCG e do capital de giro que a cobre podem ter um caráter estratégico.

Mas existem situações em que estes descasamentos se tornam insustentáveis. Um bom exemplo disto foram as consequências da transferência indireta por parte da Petrobras, em algumas de suas concorrências, de suas dívidas para a sua cadeia produtiva e de valor. A destruição de sua gestão por enorme incompetência e corrupção ao longo de muitos anos levou a empresa a um altíssimo grau de endividamento. Na verdade, o maior do mundo em seu setor. Incapaz de contratar novas dívidas por restrições mercadológicas a sua gestão partiu para a “gestão financeira criativa” (uma “prima” da “contabilidade criativa” que caracterizou a gestão financeira de outras instâncias governamentais e que quebraram o país). A ideia era simples. Venceria a concorrência a empresa que apresentasse não apenas o menor preço, mas que aceitasse receber os pagamentos pelos serviços prestados/obras executadas com o maior adiamento. Sem alternativas as empresas, para continuarem fazendo obras para a Petrobras, tinham de suportar um grande descasamento entre entradas e saídas de recursos em seus fluxos de caixa. Em um contexto de escasso e muito caro capital próprio (além dos custos de oportunidade) a única saída das empresas era se endividarem também. O final desta história e seus inúmeros efeitos colaterais são hoje fartamente noticiados pela mídia.

Veja o leitor que a transferência dos custos destes descasamentos e de outros riscos a eles inerentes para o preço da obra muitas vezes (para não dizer na maioria das vezes em contextos muito competitivos e/ou institucionalmente distorcidos) não é viável, até porque, como comentei anteriormente, os projetos/as obras “morrem” no financeiro muito antes de “morrerem” no econômico. Também aqui e, portanto, como em tudo que se refere a projetos de engenharia, um planejamento criterioso e profissional assim como a correta identificação e precificação de riscos são fatores essenciais e determinantes do sucesso ou fracasso na construção civil. Quando o contratante é o poder público o contribuinte agradece. Estamos cansados de ver obras inacabadas e empresas falidas que deixam para trás verdadeiros monumentos ao desperdício, à incompetência e à irresponsabilidade.

*José Antônio de Sousa Neto é professor da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE) e PhD em Accounting and Finance pela University of Birmingham no Reino Unido.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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