Meio Ambiente

22/03/2018 | domtotal.com

Sabedoria da Vovó: sustentabilidade e mineração

Como tendo a intenção de ganhar cada vez mais dinheiro pode a empresa pensar em sustentabilidade.

O rompimento da barragem no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na Região Central de MG.
O rompimento da barragem no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na Região Central de MG. (Divulgação)

Por Edson Roberto Siqueira Jr.*

Tenho clara a imagem da minha avó sentada na velha poltrona de couro frente à televisão assistindo ao jornal que veiculava imagens do rompimento da barragem de Bento Rodrigues/MG e previa consequências trágicas ao ocorrido.

Seu semblante traduzia todo seu sentimento e não era necessária uma só palavra para se entender tudo que passava, diante da notícia trágica, naquele espírito que já havia vivido quase 84 anos e, eu pensava, não se espantaria com nada.

No entanto, o silêncio não durou muito e a calma senhora demonstrava toda sua indignação afirmando, em alto tom, que o rompimento da barragem não deveria ocorrer, sendo absurdo que a empresa não tomasse as providências necessárias para evitar o dano ambiental, já que ganhava muito dinheiro com a mineração.

Mas quando achei que a Vovó continuaria a me assustar – e eu realmente estava com medo - com a incomum manifestação colérica de uma personalidade pacata e ponderada, ela se calou e ficou olhando pela janela, ao longe, a Serra do Curral.

Quem tem avó sabe a preocupação dos netos com esses momentos emocionalmente intensos seguidos de uma parada repentina. Pensei logo em problema!

Mas, naquele dia, ela acordou pra surpreender! Depois de trinta segundos de silêncio, agora mais ponderada e, talvez, inspirada pela visão da natureza, começou a falar com uma sabedoria e perspicácia própria de um pesquisador experiente.

Disse que havia alguma coisa errada! Como poderia a empresa querer ganhar cada vez mais dinheiro com a exploração da natureza sem prejudicá-la. Parecia claro pra minha amada avó que a pretensão de acumular dinheiro levaria a empresa a tomar decisões que não protegessem a natureza. A velha senhora estava inspirada!!

Nesse momento, aproveitei que ela tomava fôlego, e tentei explicar que a sustentabilidade poderia diminuir o ímpeto de lucro das empresas e, assim, elas teriam que preservar a natureza.

Mas aquele era o dia dela. Antes que eu acabasse fui interrompido pela sabedoria surpreendente da Vovó que afirmou que eu tinha falado bobagem.

Perguntou ela como tendo a intenção de ganhar cada vez mais dinheiro pode a empresa pensar em sustentabilidade. E respondeu, com a mesma ênfase, que a empresa não iria fazer nada custoso para preservar a natureza e, certamente, tentaria diminuir ao máximo os custos, mesmo com prejuízo do meio ambiente.

E não parou, disse que era preciso pensar diferente. Que deveríamos pensar num outro tipo de sociedade onde o lucro e o consumo não fossem valores preponderantes. Onde as pessoas tomassem decisões pensando no meio ambiente e no bem que poderiam fazer ao ser humano. Ela brilhou!

Por fim, pra não deixar de chamar a atenção do neto, concluiu dizendo que essa história de sustentabilidade era coisa de menino que achava que na sociedade na qual vivemos as pessoas deixariam de consumir ou tomariam prejuízos para preservar a natureza.

É, a Vovó estava mesmo num dia daqueles!

Edson Roberto Siqueira Jr., mestrando em direito ambiental pela Escola Superior Dom Helder Câmara, Especialista em direito tributário pelo IBET e em direito público pela Fadivale. Professor de direito constitucional e tributário.

TAGS


EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!

Comentários


Outras Notícias

Não há outras notícias com as tags relacionadas.


Instituições Conveniadas