Cultura

30/05/2017 | domtotal.com

Fé e política em American Gods

Ao acompanhar a jornada desse Odin pelos caminhos do mundo atual e ao passear por religiões e mitologias, American Gods questiona a possibilidade da fé no nosso tempo.

Odin e seu segurança lutam contra novos deuses
Odin e seu segurança lutam contra novos deuses (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

A cruzada de um homem misterioso de um olho só pelos Estados Unidos é o prenúncio de uma nova batalha de titãs. Esse homem que se apresenta como Wednesday (o ator Ian McShane, de volta à televisão em um papel à altura de seu talento, como não acontecia desde Deadwood) é na verdade o rei dos deuses nórdicos Odin, o senhor supremo da guerra, da morte e da poesia.

Inconformado pelo ostracismo a que se vê submetido, desce de Asgard à terra para combater e se impor sobre novos deuses que são cultuados pela sociedade contemporânea como Tech Boy, o deus da tecnologia; e Mídia, a deusa do marketing e dos meios de comunicação. São comandados por um certo Mister World, o deus da globalização (mais uma caracterização esquisitíssima do ator Crispin Glover, o inesquecível George McFly, pai do personagem de Michael J. Fox em De volta para o Futuro).

Para ajudá-lo nessa missão, contrata os serviços de um Leprechaun (o duende irlandês da sorte e do pote de ouro no final do arco-íris) e de Shadow, um presidiário recém libertado sem rumo e sem mais lugar no mundo para ser seu segurança. É a bordo de um antigo Cadillac e na companhia do ex-detento que o pai de Thor e Loki irá percorrer os EUA do "Joe the Plumber", o cidadão comum, para recrutar outros antigos deuses, esquecidos como ele e vivendo como podem entre os homens.

Na primeira parada em Chicago, vai atrás de Czernobog (Peter Stormare), o deus eslavo da morte - hoje trabalhando em um matadouro, abatendo vacas. Ainda irá requisitar o auxílio da devoradora sexual Rainha de Sabá (personagem lendária da Etiópia, presente tanto na Bíblia quanto na Torá e no Corão) e do deus africano contador de histórias Mister Nancy (corruptela de Anansi). Além desses, até o quinto episódio da série, já fomos apresentados a um gênio sem lâmpada e aos deuses Ibis e Chacal, guardiões da morte na tradição do antigo Egito. Certamente, outros ainda surgirão até o oitavo capítulo, no desfecho dessa primeira temporada.

O ponto de partida mais que interessante é baseado no romance do escritor e roteirista Neil Gaiman (criador da celebrada HQ Sandman), com o detalhe da série querer ir além do livro, sendo fiel à trama, porém, também com a intenção clara de expandir o universo estabelecido originalmente com a chegada de alguns novos personagens ou aumentando o papel de outros que são apenas citados no livro. Para que não se perca o fio da meada, como em Game of Thrones, o autor participa ativamente do desenvolvimento e produção do programa.

Bem diferente do que acontece em algumas séries que tentam esticar a matriz para durar no ar por mais temporadas. Nessa categoria caça-níqueis, já correm rumores sobre a pretensão de uma nova leva de episódios para 13 Reasons Why, apesar das treze fitas cassete gravadas por Hannah Baker já terem cumprido sua missão.

Ao acompanhar a jornada desse Odin pelos caminhos do mundo atual e ao passear por religiões e mitologias, American Gods questiona a possibilidade da fé no nosso tempo. Que qualidade de deuses estamos elegendo para adorar (ou servir)? Porque foram os homens que criaram os deuses - e não o contrário - teremos perdido a capacidade de nos maravilharmos com aquilo que nos transcende?

Até Jesus entra na dança. Wednesday conta para Shadow que há vários tipos de Cristo: o Jesus branco ocidental jesuítico, o Jesus negro da África, o Jesus latino mexicano... Sobre este último, explica que, como aqueles que vivem ao sul do rio Grande e sonham com uma vida melhor, ele também atravessou a fronteira ilegalmente para vir tentar a sorte nos Estados Unidos. O guarda-costas questiona o porquê de tantos Cristos, ao que Odin retruca: "a demanda é grande... o mundo anda precisando muito de Jesus".

E é exatamente aí que American Gods dá o seu grande pulo do gato, ao colocar a política no centro da discussão. Os deuses que vivem imiscuídos entre nós, sem mais serventia, são todos refugiados longe da terra pátria - porque esquecidos ou abandonados -; são invisíveis e imprestáveis - apenas porque diferentes e, portanto, descartáveis.

A batalha de Odin pelo reconhecimento à sua existência ecoa na luta pelo direito a estarem vivos de palestinos, curdos e sírios; de todas a minorias, quer sejam étnicas, religiosas, de orientação sexual ou de gênero. É nesse grito por liberdade e respeito que repousa a grande beleza e importância da série.

E se American Gods fosse ambientada no Brasil?

Vamos imaginar a cena: preocupado com o destino de Pindorama, Tupã, o grande deus indígena brasileiro, abandona a aposentadoria (onde foi colocado forçadamente por José de Alencar, no final de Iracema, quando Poti se converte ao catolicismo) e, como o Wednesday de Ian McShane, volta para a terra do pau-brasil pronto para a guerra.

Como companheiro de viagem, elege Macunaíma porque, apesar de sua conhecida falta de caráter, consegue representar todas as raças de nosso povo - o que lhe dá a capacidade rara de falar e ser ouvido por todos sem desconfiança ou rancor; verdadeiro herói de nossa gente. Para cada "ai que preguiça", Tupã lhe dá uma lambada e a caminhada prossegue.

O grande deus guerreiro percorre o país de canto a canto para convocar aqueles que irão com ele para o campo de batalha. Na Amazônia, reclama a ajuda do Curupira (sob protestos de Macunaíma; todos sabem que o espírito defensor da mata é doido para fazer uma caldeirada com o herói, desde que provou da carne de sua perna) e da Mãe D'água e em Alagoas faz a pintura de guerra em Zumbi dos Palmares.

Na Bahia, mergulha no açude de Cocorobó, no rio Vaza-Barris, para resgatar Antonio Conselheiro. Desde a queda de Canudos, é ali que vive o beato, submerso, sem se afastar do lugar onde construiu o arraial famoso e onde ainda moram as almas dos conselheiristas.

Segue até Minas Gerais para convencer Diadorim e Riobaldo a acompanhá-lo. Os dois vivem encantados em Cordisburgo, mas decidem vestir mais uma vez a indumentária de jagunços para combater o grande combate.

No Rio Grande do Sul, vai ao encontro de Marte, o deus romano da guerra. Veio como imigrante, no entreguerras, e ali se estabeleceu no seio da colônia italiana. Hoje em dia é proprietário de uma vinícola em Bento Gonçalves, em sociedade com Baco, e é muito famoso em todo o município pelo mau humor constante.

Por fim, com a muiraquitã que Macunaíma tomou do gigante Piaimã, Tupã ressuscita Luiz Carlos Prestes - que insiste em chamar o pequeno exército de "coluna". Juntos, rumam todos para Brasília para derrotar as deidades que querem arrasar com Pindorama.

Sem medo, nossos deuses antigos do Brasil enfrentam em plena Esplanada dos Ministérios esses deuses sem coração e sem fígado: a deusa corrupção, a deusa da grande mídia, o deus protetor dos ruralistas (que também defende a escravidão), o deus das entidades patronais (sempre com um patinho de borracha amarelo debaixo do braço) e o deus das delações premiadas sem provas. Todos eles servem ao deus supremo - que é para onde querem enviar toda Pindorama: ao deus dará.

Se assistir a essa série, é certo que Temer dirá: "Tupã e sua turma não passam de baderneiros". Mal sabe ele que essa luta não esmorece - e está apenas na primeira temporada.

(American Gods: um novo episódio a cada semana no serviço de streaming Amazon Prime Video)

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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