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10/10/2019 | domtotal.com

Presidente chileno diz que apesar dos protestos contra o governo, não renunciará

Se engana quem pensa que Mariana e Brumadinho foram o pior. Em Itabira, 500 milhões de metros cúbicos de lama e lixo de minério já provocam uma tragédia humana e ecológica a céu aberto.

Se engana quem pensa que Mariana e Brumadinho foram o pior. Em Itabira, 500 milhões de metros cúbicos de lama e lixo de minério já provocam uma tragédia humana e  ecológica a céu aberto.
Se engana quem pensa que Mariana e Brumadinho foram o pior. Em Itabira, 500 milhões de metros cúbicos de lama e lixo de minério já provocam uma tragédia humana e ecológica a céu aberto.

Antes de tudo, que fique bem claro: a Vale do Rio Doce é uma puta empresa — nos dois sentidos. A Vale é ótima, a Vale é péssima. Para contar o que faz de bom, há a milionária propaganda da mineradora, comunicadores áulicos e um exército de bajuladores formado principalmente por funcionários da companhia e parentes. Raro é gente incorruptível, com conhecimento, coragem e disposição para mostrar o lado cruel da atividade que a tornou a segunda maior mineradora do planeta, que abastece o mundo de minério há quase 80 anos.

Itabira, onde nasceu a Companhia Vale do Rio Doce, como abastecedora de minério para fabricação de armas contra Adolf Hitler, é a avant première do fim do mundo, cenário pronto e permanente para filmes pós-apocalípticos — só falta Hollywood descobrir. A criação da empresa por Getúlio Vargas, em 1º de junho de 1942, pôs a então pacata cidade mineira como protagonista de uma imensa maquinação de quatro faces. Diplomática — destinação, via Acordos de Washington, da empresa anglo-americana Itabira Iron Ore Company, dona de terras itabiranas com as maiores reservas minerais conhecidas; econômica — a fundação da própria companhia, um dos principais motores do Brasil; militar — fornecimento aos Aliados de matéria para a indústria bélica; e política — acertos que resultaram na entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

Morador leva pato de estimação em simulação de rompimentoMorador leva pato de estimação em simulação de rompimento

Pujante história de Itabira para o mundo. Do minério arrancado do solo da cidade são feitos dezenas de milhares de produtos para benefício de povos de todos os países: camas hospitalares, navios, pontes, pregos, casas, talheres, carros, alfinetes, traves de campo de futebol, fechaduras, arames, miudezas de computador e mais e mais e mais. Noctívagos itabiranos, lá pela oitava cerveja ou quinta cachacinha, costumam bradar que cidade não há neste mundão que não tenha algo feito com pedaço de Itabira. "Até na Lua há, em fragmentos de foguete lá deixados por estadunidenses", orgulham-se.

É bonito, potente, rende poesia, dá para ambientar romance, mas o custo para Itabira foi pesado. As montanhas que cercam parte da cidade, carcomidas por enormes dentes de ferro, lembram queijo atacado por muitos ratos — lá se foram o Cauê e picos menos famosos, como o Conceição. A poluição é tanta que fixou esta frase na boca de donas de casas: "A gente limpa um móvel e daí meia hora está todo sujo de minério novamente". A vida de toda a população local e de quem visita o município é ameaçada por cerca de 500 milhões de metros cúbicos de rejeito em 15 barragens e megabarragens, o que torna o berço de Carlos Drummond de Andrade o lugar que, provavelmente, mais acumula lama de mineração no mundo.

A Vale entope Itabira com o lixo de seu ofício há quase 80 anos, desde que a extração mineral em grande escala começou na cidade. As quatro maiores barragens são Itabiruçu, 38 anos, com 222,8 milhões de metros cúbicos de rejeito; Pontal, 47 anos, com 220,4 milhões de metros cúbicos de rejeito; Conceição, 42 anos, com 36 milhões de metros cúbicos de rejeito; e Rio de Peixe, 42 anos, com 14 milhões de metros cúbicos de rejeito. Aproximadamente meio bilhão de metros cúbicos de rejeito. A represa que provocou hecatombe em Brumadinho armazenava em torno de 12 milhões de metros cúbicos de rejeito. Se Itabira não tivesse apavorada, seria melhor que ficasse.

O engenheiro Rodrigo Chaves, número 1 da Vale no município, informou em fevereiro deste ano, na Câmara de Vereadores, que 12.500 pessoas moram na rota da lama das barragens e megabarragens, em 5.200 imóveis, mas em agosto a promotora de Justiça Giuliana Fonoff disse, também na sede Poder Legislativo, que são 18 mil pessoas. Dias depois, em texto veiculado na rede Facebook pela Vale, sobre simulação de acidente com barragens, o número subiu para 19 mil almas em cerca de 8 mil casas de 27 bairros. É possível que em algum momento seja passada a informação correta do contingente itabirano nas "zonas de autossalvamento", eufemismo usado pela mineradora para rotas do pavor, rotas da insônia, rotas do trauma, rotas do tranquilizante, rotas dos imóveis desvalorizados, rotas da revolta.
Abundam relatos de idosos que precisam tomar remédio para dormir, de crianças com medo de ir à escola, de trabalhadores com sono intermitente, que acordam assustados por barulho, imaginando o pior.

"Sinto-me desconfortável morando aqui. Não desejo minha casa para ninguém" , declarou ao portal G1, em março, o ex-funcionário da Vale João Batista Carlos, 64 anos, morador no bairro Bela Vista, a cinquenta metros da barragem Pontal. As estruturas, no entanto, não ameaçam apenas quem reside na rota das represas. Põem em risco a vida de todos os itabiranos que saem de casa e de visitantes.Quem circula por Itabira está vulnerável, pois pode dar o azar de estar no caminho da morte no momento do colapso de um dos monstrengos de água e lama.

Itabira tem um documento pelo qual a Vale se compromete a fazer reassentamento populacional sempre que se comprovar risco causado por suas atividades, o que é óbvio no caso de quem mora na rota das barragens e megabarragens. Trata-se da condicionante 46 da Licença de definir a matança humana causada em área de concentração de funcionários estupidamente localizada abaixo de barragem feita pelo método a montante. Crime parece vocábulo bem adequado. Operação Corretiva, acordo assinado em 2000 pela empresa e prefeitura, com aprovação da Câmara de Mineração do Conselho Estadual de Política Ambiental. A companhia está calada sobre esse assunto, dele foge com velocidade de quenianos.

São 52 condicionantes, cujo cumprimento está em dúvida e será investigado em CPI pela Câmara de Vereadores.

A Vale se comprometeu, ainda conforme a condicionante 46, a discutir o reassentamento com a população e com a prefeitura, mas por parte desta não se percebe nenhum movimento para cobrar a obrigação firmada. O prefeito Ronaldo Magalhães e sua equipe têm sido de uma passividade calamitosa em tudo o que diz respeito à mineração: água, barragens, fim do minério e outras gravidades.

A mineradora não tem condições de garantir o risco zero nas barragens e megabarragens, informou Rodrigo Chaves. Não há risco zero, há controle de risco, o que fazemos , declarou, em resposta ao vereador itabirano André Viana (Podemos), em sabatina na câmara. Não tenho palavras para definir o ocorrido em Brumadinho , disse, revelando-se pouco íntimo do Aurélio, do Caldas Aulete e do Houaiss. Ora, nos dicionários há ótimos termos parapara definir a matança humana causada em área de concentração de funcionários estupidamente localizada abaixo de barragem feita pelo método a montante. Crime parece vocábulo bem adequado.

As atitudes tomadas até agora pela Vale em Itabira não foram suficientes para garantir paz à população. Instalou sirenes de alerta (a sirene não serena), fixou centenas de placas indicando rota de fuga, promoveu o maior simulado de rompimento de barragens já feito no Brasil e, pressionada pelos poucos itabiranos que socam pressão, contratou a empresa Aecom, de origem norte-americana, para realizar auditoria independente em suas barragens e megabarragens, ao custo aproximado de R$ 40 milhões.

População vive em estado de alerta e tensão 24 horas por diaPopulação vive em estado de alerta e tensão 24 horas por dia

Outra providência é repetir o tempo todo que as barragens são confiáveis. Tranquilidade, segurança, tudo conforme os mais modernos e rigorosos sistemas de proteção, é o que os homens da exportadora de minério papagaiam. Do ponto de vista pessoal, é ótimo estratagema. Se nada ocorrer, estarão certos; caso venha uma hecatombe, ficarão tão encrencados que o menor de seus problemas será o constrangimento por terem sido desmentidos. Segurança também era palavra muito usada pela Vale em Mariana e Brumadinho.

Além das barragens, da poluição do ar e da má paisagem provocada pelas montanhas desfiguradas, prejudicando a autoestima do povo, a mineração causa assoreamento de córregos; esgarçamento de culturas, ao apagar bairros inteiros em desocupações de áreas a minerar ou perto de minas; migração desordenada, criando favelização e pressionando os serviços públicos; esterilização de solos; problemas no abastecimento de água ao sugar o líquido mais fácil, obrigando o município a captá-lo em lugares mais difíceis, o que encarece o produto para o consumidor, entre outros problemas.

Então, é melhor não minerar, perder os empregos e deixar a população sem os benefícios resultantes da atividade? Não! Não se defende a paralisação do setor, mas que os municípios minerados sejam recompensados com justiça e estejam em segurança.


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