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20/11/2019 | domtotal.com

A rebelião das águias

O símbolo dos EUA tornou-se pesadelo hitchcockiano para os habitantes de um vilarejo

Por Laurel Braitman*

Dutch Harbor é um vilarejo localizado às margens do mar de Bering, em uma pequena ilha do arquipélago das Aleutas, no Alasca, a 1.900 quilômetros de Anchorage. É o porto pesqueiro mais produtivo dos Estados Unidos. Todos os invernos, deixa de ter uma população diminuta para acolher milhares de pessoas quem vêm para trabalhar no centro de processamento de peixes, nas embarcações caranguejeiras ou nos grandes barcos que se dedicam à pesca do bacalhau e do abadejo. Mas elas não são as únicas a tentar a sorte no povoado.

Os habitantes locais as chamam de “as pombas de Dutch Harbor”. Nós, forasteiros, as chamamos de águias-de-cabeça-branca. Junto a esta comunidade de pouco mais de 4.700 residentes permanentes vivem entre 500 e 800 águias. Elas observam tudo com um olhar crítico a partir dos postes de luz, contemplam através das janelas das casas, comem raposas e gaivotas, pousam nas árvores próximas à escola secundária local e se instalam nas bordas dos telhados como anemômetros vivos. Nas docas, elas avançam sobre cada barco que chega ao porto, como em uma cena de um filme de Hitchcock, para disputarem os pedaços de iscas, tirarem o lugar umas das outras, amontoarem-se sobre os contêineres cheios de caranguejos e grasnar suas opiniões.

 Estamos acostumados a ver a ave nacional dos Estados Unidos como o grande herói dos documentários sobre a natureza, pescando salmão em rios imaculados, nas cédulas dos dólares e nos emblemas de todos os organismos federais, da CIA e da Agência Nacional de Segurança (NSA) ao gabinete do presidente. Mas em Dutch Harbor, principalmente no inverno, quando os animais têm mais dificuldades para pescar, fica evidente o que essas águias realmente são: aves carniceiras, brigonas e quase imbatíveis.

Quando se vive tão perto desse importante símbolo federal, quando é possível vê-lo diariamente, é mais difícil considerá-lo majestoso. Os incidentes com águias-de-cabeça-branca lotam as fichas da polícia local tanto quanto as chamadas por causa de pescadores embriagados que perderam a consciência em uma cama que não é a sua ou que fugiram com a empilhadeira de outro.

Na minha primeira manhã em Dutch, fui à KUCB, a emissora local de rádio e televisão, para pedir que me contassem histórias relacionadas com as águias. Antes mesmo de deixar o microfone, já me ligavam e me enviavam mensagens. Um homem foi diretamente à emissora com seu limpa-neve e chegou antes de eu sair do estacionamento. Todo o mundo tem alguma história com as águias; normalmente, mais de uma.

Andre Ayure, tenente do corpo de guardas costeiros, vive em Dutch há pouco mais de um ano. No terceiro dia em que estava no Alasca, decidiu subir o monte Ballyhoo, uma montanha enorme e belíssima nos arredores do vilarejo. Quando descia, uma águia jovem decidiu que não gostava da aparência do rapaz, com seu blusão com capuz da American Eagle, e se lançou sobre ele mais de 10 vezes, um susto de morte. “Pensei: é o meu terceiro dia no Alasca. Não queria ter vindo para cá e agora vou a morrer por causa de uma águia. Que merda”.

Ayure escapou por um triz. Quando apalpou o bolso da frente do blusão comprovou que tinha perdido o celular e as chaves ao se agachar para fugir das garras da ave. Ergueu o olhar em direção à montanha e bem naquele momento viu que a águia levava seu telefone.

Na época de procriação, quando as águias protegem seus filhotes, aproximar-se delas pode ser perigoso. Na agência local dos correios, em cujo estacionamento um casal com instinto defensivo fez seu ninho, o risco de ataques é tão grande que foram instalados cartazes que mostram uma águia arremetendo bruscamente, com as garras preparadas para atacar, e um cliente que agita as mãos em pânico. Sob a ilustração, a advertência em grandes letras vermelhas: “Perigo, águias em período de procriação”. As pessoas deixam à mão capacetes e pedaços de pau para poderem se defender no caminho entre o carro e o escritório.

Beatriz Dietrick é enfermeira no Centro de Saúde e Serviços Familiares de Iliuliuk, a única profissional de saúde que trabalha permanentemente em Dutch Harbor. A maioria das lesões traumáticas que ela atende são feridas causadas pela pesca ou por acidentes no centro de processamento: macabras amputações de dedos ou peitos esmagados por um contêiner de metal cheios de caranguejo que despencou. “Mas o mais terrível são as feridas dos ataques de águias”, afirma. “As vítimas chegam com a cabeça completamente ensanguentada. Como se tivessem sido golpeadas com uma barra de ferro”. As pessoas chegam cobertas de terra ou barro ou com a roupa rasgada, porque a águia tem tanta força que pode derrubar uma pessoa. Uma mulher que foi atacada na agência de correios procurou tratamento em uma clínica, mas antes de entrar no edifício sofreu outro ataque.

As águias se tornaram um símbolo federal dos Estados Unidos em 1782, um ano antes do fim da Guerra da Independência, quando os Estados Unidos ainda lutavam contra a Inglaterra e no Meio Oeste ocorriam enormes matanças de indígenas americanos. Benjamin Franklin se arrependeu da decisão de colocar a imagem da ave no emblema nacional, porque pensava que as águias tinham “más qualidades morais”. Em uma carta a sua filha, disse que teria gostado mais de um peru, apesar de reconhecer que eram “vaidosos e um pouco bobos”.

O voo da águia. Veja o vídeo.

https://youtu.be/G3QrhdfLCO8

*Laurel Braitman escreve para o New York Times

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