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27/10/2019 | domtotal.com

Paulo Leminski: 'Insônia sobre Sônia'

O Dom Maior publica 'Insônia sobre Sônia', mais uma pérola oculta do genial poeta e escritor curitibano

O Dom Maior publica 'Insônia sobre Sônia', mais uma pérola oculta do genial poeta e escritor curitibano
O Dom Maior publica 'Insônia sobre Sônia', mais uma pérola oculta do genial poeta e escritor curitibano
Sônia BragaSônia Braga, atrizA índia, a mais linda cunhã da aldeia tupinambá, viu o marinheiro português de barba preta, o caraíba mais bonito que ela já tinha visto, e sentiu um calor subindo por dentro, como quando amanhece. O caraíba, Pero, Gonçalo, Manuel, alguém com nome de rei, sentiu o calor daquela terra onde o sol amadurece mamões e mangas, cajus e abacaxis.
Aquela noite, os espíritos da floresta ouviram a palavra “amor” em tupi e naquela língua longínqua que vinha com o murmúrio de todas as ondas do grande oceano.
A África ferida deixou escorrer seu sangue chocolate e mal, seus cabelos em caracol, por sobre as águas atlânticas na hora quando a luz dói mais e o som está mais alto.
No riacho onde se cruzam os amores e encontros da América, da África e da Europa, ela, ninfa, orixá das águas, iara, se banha.
Sônia Braga não tem nada a ver com isto. Isto é, Sônia Braga tem tudo a ver com isto.
Todo Brasil, o pernambucano Gilberto “Casa Grande & Senzala”, nosso antropólogo mais inteligentemente sensual, achou Sônia o máximo que a morenidade da gente podia dar em matéria de fêmea.
Exageros do Gilberto, certamente.
Mas exageros justificados.
Mistura de todos os mistérios, Sônia Braga é insuportável. Só o fato de ela existir já nos coloca certas questões fundamentais.
Sobretudo, a questão que não tem saída: o que fazer num mundo onde existe Sônia Braga, a não ser querer ser ou ter Sônia Braga?
*Nos anos 1980, quando a Vogue Brasil era propriedade da família Carta, era tradição dedicar uma edição, anualmente, a um autor brasileiro de destaque. O escolhido de 1988 foi Caetano Veloso. Como redator-chefe da revista, no embalo da preparação daquele número especial, num fim de tarde aparece na redação, sem aviso prévio, uma figura envolta numa longa capa preta, que se anunciou como Paulo Leminski (1944-1989), trazendo alguns textos dedicados a Caetano. Os textos eram brilhantes. Um deles foi publicado, os demais ficaram esquecidos entre os meus alfarrábios até bem pouco. Finalmente, tenho a honra de dar à luz mais esta pérola do genial escritor curitibano (Marco Lacerda, escritor e Editor Especial do Dom Total).