Cultura TV

04/10/2016 | domtotal.com

Anjos na televisão

A teledramaturgia tem nos prestado um desserviço transformando anjos em lugar comum.

O mais próximo que conseguimos chegar dessa força em nossas novelas foi com o João Gibão.
O mais próximo que conseguimos chegar dessa força em nossas novelas foi com o João Gibão. (Reprodução/TV)

Por Alexis Parrot*

Figura mítica das mais interessantes, o anjo nunca deu muita sorte na televisão brasileira. Volta e meia nossa teledramaturgia retorna a ele, porém, até hoje não conseguiu-se explorar à altura as possibilidades dramáticas que o personagem pode carregar.

Não raro, quando dão o ar da graça em nossas novelas, eles são quase que exclusivamente da falange dos anjos da guarda. Nunca anunciam nada, nada revelam... apenas guardam e protegem (ou tentam).

Já foram anjos da guarda, todos em registros cômicos: Felipe Camargo (O Sexo dos Anjos, de 89), Caio Blat (Um Anjo caiu do céu, 2001), Eric Marmo e Claudia Jimenez (Sete Pecados de 2007) e mais um punhado de atores e atrizes em novelas que nem merecem ser citadas, tamanho o desserviço que prestaram ao nosso imaginário transformando os anjos em apenas mais um lugar comum.

(Raríssima exceção nesse mar de asas e auréolas sacolejantes talvez seja a Celestina, vivida por Dercy Gonçalves em Deus nos Acuda, de Silvio de Abreu, de 92. Responsável pela guarda do Brasil, a "anja" de Dercy tinha a missão de regenerar um brasileiro de caráter duvidoso. A ideia do anjo da guarda - mais uma vez cômico - funciona mais pela brilhante escalação da humorista velha de guerra do que pela trama em si. Vamos sempre nos lembrar mais de Deus nos Acuda pela sua abertura - onde convivas, dignos de uma festa na mansão de João Dória, são tragados pelo ralo a reboque de um mar de lama - do que por sua história ou personagens.)

Ainda espero ver o dia em que nossa TV consiga produzir algo que guarde alguma semelhança com  Asas do Desejo, de Win Wenders. A fábula épica que persegue a trajetória do anjo Damiel (Bruno Ganz), encantado pela humanidade e desejoso de sentir o que os homens são capazes de sentir. Mesmo com todo o seu poder, Damiel anseia por experimentar o gosto do café quente na boca ou simplesmente ter os dedos sujos pela tinta do jornal que se folheia, displiscentemente - o tipo de ato que (pelo que carrega de cotidiano) qualquer um de nós é incapaz de saborear na plenitude. Um anjo, afinal, que nos faz pensar sobre o sentido da nossa própria existência.

A gota d'água vem quando o ser alado se descobre apaixonado por uma trapezista de circo mambembe - o fato de apaixonar-se comprova que ele já vinha instalando essa nova dimensão da vida em si mesmo, tamanho era seu desejo pela sensibilidade. E quem ama ou já amou, sabe o que isso significa: abrimos oceanos para viver e dar vazão ao amor. Amando, cada novo dia é um inaugurar-se; o frio na barriga, o arrepio, ambos vigorando permanentemente, como se toda noite fosse noite de estreia - no simples roçar com a pele da pessoa ou só de olhar para o seu sorriso em uma fotografia. Anjos não suspiram, nós humanos (apaixonados) sim. E por isso, somos mais felizes que até os próprios anjos. (E gratos, por não sermos anjos.)

A grandeza do filme de Wenders está nesse elogio da humanidade: somos atrapalhados; erramos muito, é verdade, mas enquanto formos capazes de sentir, há esperança no mundo. E tanto isso é real que até anjos querem jogar tudo para o alto para se igualarem a nós, teoricamente, meros mortais.

O mais próximo que conseguimos chegar dessa força em nossa teledramaturgia foi com o João Gibão (Juca de Oliveira), na Saramandaia original de Dias Gomes, de 1976. Alado, mas não exatamente um anjo, Gibão sofreu por ser diferente e engajado nos ideais que acreditava. Ironia das ironias, o personagem só encontra a redenção ao assumir as asas (que escondeu durante toda a vida) e sair voando, no último capítulo da novela. Como o anjo caído de Asas do Desejo, ele só queria ser uma pessoa ordinária e corriqueira - porque é disso que se tratam os anjos e talvez aí esteja a grande lição que podemos aprender com eles: foram os primeiros a se darem conta da beleza que é ser humano.

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve às terças-feiras sobre televisão para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

TAGS




Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outros Artigos

Não há outras notícias com as tags relacionadas.