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20/12/2016 | domtotal.com

Balanço da TV em 2016

Terminamos 2016, essa triste etapa da vida brasileira, com a política interferindo diretamente no que assistimos em casa, pela televisão.

A criatividade passou longe dos canais e dos monitores de nossas TVs.
A criatividade passou longe dos canais e dos monitores de nossas TVs. (Reprodução)

Por Alexis Parrot*

O ano de 2016 vai grudar em nossas memórias durante muito tempo. Além de ter sido o ano do golpe, não vai deixar saudades por conta de várias perdas trágicas - a mais tocante, a queda do avião com toda a delegação do time de Chapecó. Mais deprimente que o desastre em si, só mesmo o Roberto Cabrini vasculhando os destroços da aeronave e os restos de bagagem de tripulantes e passageiros - uma iniciativa macabra e infeliz do SBT que encontra ecos no episódio de violadores de túmulos que Pasolini encenou em seu Decameron - mas sem humor nenhum dessa vez.

Nos lembraremos também da morte trágica do (bom) ator Domingos Montagner em um intervalo de gravação da novela Velho Chico. Foi o capítulo que mais movimentou uma novela sem sal, sem sentido e sem audiência - como todas que desfilaram pela TV brasileira durante o ano, via de regra. Quando veremos alguma tentativa de renovação do gênero televisivo preferido do país? Ainda não foi dessa vez.

Terminamos 2016, essa triste etapa da vida brasileira, com a política interferindo diretamente no que assistimos em casa, pela televisão. É o caso da avassaladora (e descarada) intervenção federal na EBC (Empresa Brasil de Comunicação), mais notadamente na TV Brasil - emissora que nasceu com desejo e possibilidades de ser pública mas que termina o ano mais estatal que qualquer canal do leste europeu nos tempos em que vicejava o comunismo não democrático de Stálin e que tais na região.

Ganhou grande repercussão a recente demissão de Leda Nagle, à frente do Sem Censura por mais de 20 anos. A jornalista afirma ter sido vítima de um golpe de maucaratismo do atual presidente da empresa, Laerte Rímoli - o amarra-cachorro no campo da comunicação de Aécio e de Eduardo Cunha, ex-funcionário da Globo que se utiliza do cargo público para agradar os antigos patrões. Ele, pelas redes sociais, chama Nagle de diva histérica, dizendo ainda que está "sanando as contas" da TV Brasil. A qual dos dois pertence mesmo a razão, não saberemos. Entramos no campo do disse-me-disse nessa peleja.

Mas o grande golpe na luta pela democratização da comunicação pública brasileira já havia sido dado. Com uma canetada do presidente - e com anuência da maioria da corja (eleita, porém, corja) que ocupa o congresso nacional - foi extinto o Conselho Curador da EBC, fórum fundamental, com representação da sociedade, que definia políticas de programação para a empresa. Não que nos surpreenda a iniciativa; o que mais esperar de um presidente golpista e ilegítimo que distribui à torto e à direito favores às elites para se aguentar no cargo?

Ao que tudo indica, nem assim conseguirá se segurar. Como Julio César, conforme contou Shakespeare, é bom que Temer tome cuidado com "os idos de março", momento em que traições afloram - cometidas naquele caso (e no nosso, por que não?) por senadores da República, "todos homens de bem"... 2017 dirá se nosso débil presidente golpista permanece ou não no trono de ferro que usurpou.

E veremos tudo, em primeira mão, pelas lentes monodirecionais do Jornal Nacional e da Rede Globo - partícipe desde a primeira hora do golpe que derrubou a presidenta eleita e um dos  principais articuladores do golpe dentro do golpe que se avizinha. (Porque televisão e política nunca andaram tão juntas nesse país como em 2016, com uma querendo determinar os rumos da outra, sempre em proveito próprio.)

E por falar em trono de ferro, vai para Game of Thrones (HBO) o troféu de melhor cena do ano: a batalha dos bastardos. A luta final entre Jon Snow e o odioso Ramsay Bolton entra para a história da TV e dificilmente será superada durante longo tempo, mesmo pelas duas últimas temporadas da série - que aguardamos ansiosamente.

Outro grande momento que merece menção: o fim da sexta e início da sétima temporada de Walking Dead (produzida pela AMC e exibida no Brasil pela FOX). O suspense sobre quem seria morto pelo grande vilão Negan deixou todo mundo com o coração na boca durante seis meses. Uma série vibrante que tem sabido se reinventar durante seu percurso... Faz tempo que não diz mais respeito a zumbis e sim ao que significa ser humano.

2016 foi o ano do Netflix, com um pouco do melhor e do pior a que fomos expostos durante o ano. Stranger Things, a grande surpresa; 3%, a primeira série brasileira do serviço de streaming, uma malfadada tentativa de ficção científica e uma enorme decepção. No ano que vem entra em cena o canal da Amazon - e o mercado de streaming no país nunca mais será o mesmo, uma promessa de briga boa pela frente. 2017 será o ano em que deixaremos de ser definitivamente telespectadores para nos tornarmos fregueses consumidores.

Vimos também em 2016 a despedida melancólica de um ícone da televisão: Jô soares deixa o espaço diário da Globo por não ter mais muito mesmo o que dizer. Porém, ainda assim, continuará convidando pessoas para falar sobre si mesmo no ano que vem - provavelmente no SBT, numa espécie de justiça poética. Voltará para a emissora de Silvio Santos para encerrar sua carreira televisiva, exatamente onde iniciou, há quase 30 anos atrás, a praga de talk shows que hoje assola a TV no Brasil. Naquele momento fez muita diferença. Mas e agora?

O balanço final é negativo.

Foi um ano em que a criatividade passou longe dos canais e dos monitores de nossas TVs. Estreias e reformulações de programas antigos sem sentido (Adnet, Porchat, Zorra...), massificação de programas de culinária e gastronomia (Master Chef - com duas edições na Band; vários no GNT; vários no TLC; vários...), a novela bíblica interminável da Record (já maior em páginas de script que o próprio Antigo Testamento...) e a Rede TV! mais irrelevante do que nunca.

E, o pior de tudo: 2016 foi o ano em que a Globo mais mentiu, manipulou e escamoteou em toda a sua trajetória. Não existe mais jornalismo na Globo e em seus canais por assinatura, só assessoria de imprensa defendendo os interesses políticos e comerciais da família Marinho. E o que mais assusta é o triste papel desempenhado pelos âncoras e apresentadores desses canais globais (salvo poucas exceções - como o Chico Pinheiro, do Bom Dia Brasil).

Mas deles a história irá cobrar. Eles parecem não saber, mas a vida não se resume a 2016.

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve às terças-feiras sobre televisão para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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