Cultura TV

07/03/2017 | domtotal.com

Direitos do telespectador

Não podemos nos esquecer de lançar algum olhar crítico sobre qualquer coisa a que assistamos.

As maneiras como assistimos TV também dizem muito de nós.
As maneiras como assistimos TV também dizem muito de nós. (Reprodução)

Por Alexis Parrot*

O escritor francês Daniel Pennac, em seu livro-ensaio Como um Romance (Rocco, 1993), lista o que seriam os "direitos do leitor"; dez mandamentos que, ao contrário daqueles que Moisés foi buscar no alto do Monte Sinai, trata-se, agradavelmente, de uma lista de autorizações (e não de restrições).

Minha curiosidade e imaginação permitiram-me perguntar se essa listagem, adaptada, caberia também a todos nós que assistimos televisão, trocando páginas e letras por canais e programas de TV. E deu liga a ideia. Proponho, então, um exercício para que pensemos na liberdade que podemos ter como telespectadores (e não consumidores passivos - como desejariam a maioria das emissoras de TV).

Divido aqui os resultados a que cheguei; porque, sim - como no decálogo dos livros, organizado por Pennac -, as maneiras como assistimos TV também dizem muito de nós, tanto individualmente quanto como grupo cultural a que pertencemos.

Primiro: O direito de não assistir

Em 2004 a finada MTV Brasil (o que existe hoje não passa de uma paródia de mau gosto do canal original) exibia em seus intervalos uma campanha onde o mote era: "Desligue a TV e vá ler um livro". A intenção era boa, mas pecava pelo autoritarismo. Não assistir TV tem que ser um direito, não uma ordem. E, mais amiúde, esse direito começa quando decidimos não assistir mais a um canal ou a um programa específico.

No leque praticamente interminável que TVs aberta, por assinatura e serviços de streaming nos oferecem, dar-nos esse direito resulta fundamental - para que possamos ocupar nosso tempo assistindo o que de fato nos importa, ou ganhando tempo para fazer outras atividades que nos preencham ou até para não fazer nada. E que cada um tenha o seu motivo. Eu, por exemplo, não assisto ao Jornal Nacional há anos - por motivos ideológicos e digestivos (meu estômago é muito sensível à farsa e ao descaramento).

Segundo: O direito de pular capítulos ou episódios

Imagine que você acabou de descobrir a existência da série How I Met Your Mother. E se você não quiser assistir a todas as 9 temporadas para descobrir quem é o pai ou a mãe do título? E se você quiser ir direto ao episódio final, no Netflix, e já saber de antemão o grande segredo do programa? - Para, então, voltar e assistir a todos os episódios e testar de fato a série, para ver se tudo bate, se não há furos de roteiro... ou até para decidir que não vale mesmo a pena assistir aquilo! Coisas que só a internet faz por você...

Também pode acontecer de você não estar tão engajado assim na novela que está no ar hoje... Mas tem um personagem que te cai bem ali. Para que assistir àquilo de segunda a sábado se o que te interessa da trama é tão específico? Pular uns dias sem assistir não é pecado, muito ao contrário. Geralmente, se assistimos dois ou três dias na semana, já deu. Continuamos por dentro da trama geral tranquilamente... Não é toda novela que merece ser vista de cabo a rabo (não se fazem mais Roque Santeiro, Tieta, Vale Tudo, aos borbotões - e essa das nove da Globo, no ar atualmente, é uma das mais difíceis de se assistir em muitos anos).

Terceiro: O direito de abandonar um programa

Mesmo sendo um entusiasta do programa, abandonei rapidamente as versões Kids e Profissionais do Master Chef. Não me atingiram como o formato original, a competição entre cozinheiros amadores - que me move e me faz torcer. E, se não nos move, há que ser abandonado de estalo!

E isso acontece muito: desisti bem na largada da novela O Beijo do Vampiro (esperava uma nova Vamp, mas o que me ofereceram foi decepcionante; cheguei até a pendurar uma réstia de alho no televisor), e larguei no meio a segunda temporada de Twin Peaks (um absurdo cometido contra uma das melhores coisas que a TV já viu em todos os tempos. O que chamaram de segunda temporada foi, na verdade, um acinte à memória de Laura Palmer; praticamente uma profanação de túmulo).

Quarto: O direito de rever

O advento do videocassete e das fitas VHS foi revolucionário. Naqueles idos dos anos 80-90, finalmente, poderíamos gravar os nossos programas favoritos para rever quantas vezes quiséssemos - ou até as fitas arrebentarem ou darem fungo. O prazer poderia se repetir. Me lembro que gravei e revi durante muitos e muitos anos um especial de natal da Globo revivendo a Grande Família com o elenco original (Jorge Dória, Heloisa Mafalda, Brandão Filho... até Pedro Cardoso já estava ali, interpretando o novo namorado da Bebel - e já se aclimatando para, anos depois, assumir definitivamente o papel do marido oficial, Agostinho).

Depois vieram os boxes para colecionadores com temporadas de séries. Sopranos, House, The West Wing... Ainda tenho todas essas completas e, de quando em quando, as revejo com carinho e com um interesse que não se esvai - do primeiro ao último episódio. 

E hoje, com a internet, praticamente tudo está disponível - de modo oficial ou pirata. E estamos sempre descobrindo novas coisas para depois podermos... rever! O desejo por esse reencontro (com programas, atores, autores, temas e personagens...) faz parte da nossa natureza. Gostamos de nos sentir em casa - e a televisão tem também esse poder.

Quinto: O direito de assistir qualquer coisa

Programa do Ratinho, Big Brother, The Noite, Adnight, Geraldo Brasil, Zorra Total, Show da Fé, Programa do Porchat, Fala que eu Te escuto, Polícia 24 Horas, TV Fama, Balanço Geral, Superpop, Roda Viva, Fique Ligado, Brasil Urgente, A Lei do Amor, Cidade Alerta, Jornal Nacional, Fantástico, Faustão, Programa do Gugu, TODO o jornalismo do SBT, A Terra Prometida, Fofocalizando, Casos de Família, Power Couple, A Fazenda, A Tarde é Sua... a lista de programas de qualidade duvidosa - para dizer o mínimo - que a TV aberta brasileira nos oferece hoje é enorme.

Porém, é direito de cada um de nós, assistir a qualquer coisa que quisermos. Só não podemos nos esquecer de lançar algum olhar crítico sobre qualquer coisa a que assistamos. Que nos questionemos sempre até sobre o porquê de gostarmos daquilo. Tudo tem um motivo. Pode ser até o primeiro passo para mudarmos de canal, experimentarmos outras coisas, outros programas...  Mudar de canal é saudável - e pode ser surpreendente.

Na semana que vem, segue a discussão, com os próximos 5 direitos do telespectador.

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

TAGS




Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outros Artigos

Não há outras notícias com as tags relacionadas.