Religião

24/04/2017 | domtotal.com

Desamarrar as sandálias, para tocar o sagrado

A fala de Jesus, para ir pelo mundo e fazer mais discípulos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e Espírito Santo, significa engrossar as fileiras das igrejas cristãs?

No diálogo inter-religioso, é preciso desamarrar nossas sandálias para pisar no chão sagrado do outro.
No diálogo inter-religioso, é preciso desamarrar nossas sandálias para pisar no chão sagrado do outro. (Divulgação)

Felipe Magalhães Francisco*

Em nosso último artigo, Só Jesus salva?, refletíamos sobre a importância do diálogo inter-religioso e da necessária atenção a uma compreensão responsável da pessoa e da missão de Jesus Cristo, por parte dos cristãos, a fim de que o diálogo seja possível e maduro. Avançando um pouco em nossa reflexão, um dos pontos que não podemos ignorar para que o diálogo inter-religioso seja possível, é o da importância da negação de toda e qualquer dimensão proselitista. Esse é um ponto chave e, certamente, difícil para os cristãos.

Os versículos finais do Evangelho de Mateus são um imperativo forte para os adeptos do cristianismo, seja católico, protestante, ou evangélico. A fala atribuída a Jesus, de que os apóstolos deviam ir pelo mundo a fazer mais discípulos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e Espírito Santo (cf. Mt 28,19-20), não deixa dúvidas, aparentemente, de que a expansão da mensagem cristã é necessária. Mas, vem-nos a pergunta que aqui não responderemos – fica como pauta para os leitores e leitoras: expandir a mensagem do cristianismo significa engrossar as fileiras das igrejas cristãs?

Muitos cristãos e cristãs dizem respeitar outras religiões e tradições religiosas, mas tudo não passa de desculpa proselitista. Se há intenção de converter o outro para a minha própria tradição de fé, o diálogo a que me proponho é falso. Para que seja verdadeiro, o diálogo precisa ser despretensioso institucionalmente. Dialoga-se para conhecer o outro e conhecermos a nós próprios. O que não significa que não nos abramos aos possíveis frutos desse diálogo, tal como ações que promovam a paz e a transformação social.

E aqui se esclarece a imagem que recorremos para dar título à nossa reflexão. Se nos propomos ao diálogo inter-religioso, é preciso desamarrar nossas sandálias para pisar no chão sagrado do outro, tal como Moisés, diante da sarça ardente pela qual Deus se revelou a ele (cf. Ex 3,5). Não se trata de abrirmos mão de nossa singularidade de fé, mas de reconhecer que a fé do outro, que me escapa, também está cheia do sagrado, isto é, de uma experiência transcendente e cheia de sentido. Tocar a fé do outro exige reverência e reconhecimento. Para isso, é preciso nos desnudarmos de nossos preconceitos, absolutismos e juízos de valor.

Reconhecer o sagrado que toca, existencialmente, o outro, é reconhecer o caráter não absoluto de nossa própria fé. Todos podemos amadurecer, abrindo-nos ao olhar do outro e para aquilo que lhe tem valor. Essa é uma grande lição que o processo crescente de secularização nos traz: em vez de nos apegarmos a uma postura apologética e proselitista, em favor de nossas próprias instituições religiosas, podemos agregar valor à nossa própria experiência de fé e, sobretudo, de crescimento humano, se levarmos em conta que a fé do outro, também pode nos santificar. É preciso descalçar os pés e correr o risco!

*Felipe Magalhães Francisco é doutorando em Ciências da Religião, pela PUC-MG, e mestre e bacharel em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Coordena a Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). Escreve ás segundas-feiras. E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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