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02/05/2017 | domtotal.com

Humor na TV: os grandes personagens

Porque havemos sempre e cada vez mais que celebrar o riso.

Os protagonistas da série Seinfeld, um programa que deixou saudade.
Os protagonistas da série Seinfeld, um programa que deixou saudade. (Reprodução)

Por Alexis Parrot*

Umberto Eco no seu O Nome da Rosa criou o personagem do bibliotecário cego (uma homenagem a Borges) cujo maior desejo era esconder do mundo um suposto segundo capítulo da Poética de Aristóteles que versaria sobre a comédia. Para ele o riso e a fé não poderiam coexistir - no que estava redondamente enganado.

Porque havemos sempre e cada vez mais que celebrar o riso e o humor - um antídoto contra a falta de sentido que a vida pode nos jogar na cara a qualquer momento - proponho um ranking para brindar aos melhores personagens que já vimos nas séries de humor da televisão norte americana. 

12) Al Bundy (Ed O'Neil) - Married with Children / 1987-1997

A definição "um pobre diabo" nunca caiu tão bem em alguém. O chefe de família suburbano e machista que odeia seu emprego de vendedor de calçados e que foge a todo custo de ter que transar com a mulher é um clássico até hoje insuperado. Sonha acordado com dólares que nunca chegam e mulheres bonitas que nunca terá, mas sempre é obrigado a voltar à realidade cruel de seu nem um pouco doce lar. É explorado e desprezado pela esposa perua, a filha que adora sensualizar e o filho burro como uma porta. Nem o cachorro o respeita. Rimos de sua desgraça cotidiana para não rirmos de nós mesmos (afinal, todos nós já tivemos nossos momentos de Al Bundy).

Uma frase inesquecível: "Eu vivi e eu amei... aí me casei."

11) Larry David - Curb your Enthusiasm / 2000 -

Co-criador da genial Seinfeld, Larry David interpreta uma versão piorada de si mesmo nessa comédia de erros e constrangimento permanente. Excêntrico, hipocondríaco, misantropo, racista, pão-duro e superficial, inferniza a vida da mulher, do seu agente e de quem mais tiver o azar de cruzar seu caminho. Preocupa-se com pequenos detalhes que só incomodam a ele e nunca é capaz de enxergar o que de fato importa. Está sempre pronto a dizer a coisa errada na hora errada para a pessoa errada; não se importa com ninguém, só pensa em levar vantagem e vai gerando inimizades e decepções por onde passa - deveria haver uma lei que proibisse gente como ele de viver em sociedade. 

Uma frase inesquecível: "Em situações de convívio social eu sempre fico segurando meus óculos. Faz com que eu me sinta seguro e confortável e evita que eu tenha que apertar a mão de alguém."

10) Will Smith - Fresh Prince of Bel-Air /1990-1996

O papel de formação de um então jovem Will Smith - já esbanjando carisma e naturalidade -ao encarnar um adolescente da Filadélfia que é enviado para morar com os tios ricos na Califórnia. O ponto de partida para o humor da série era o choque do encontro desses dois mundos tão distantes social e culturalmente. O grande contraponto do personagem de Smith era seu primo Carlton, um almofadinha incapaz de relaxar e se divertir com a vida (mesmo na adversidade) - coisa em que o Fresh Prince tinha mestrado e doutorado. Além disso, a série sempre soube se colocar criticamente sobre a tensão racial dos EUA e o preconceito.

Uma frase inesquecível: "Rapaz... eu amo o halloween! É a única época do ano em que um negro pode usar uma máscara à noite e não ser preso."

9) Bill McNeal (Phil Hartman) - Newsradio / 1995-1999

Uma caricatura muito bem acabada e hilária do típico locutor de rádio cuja voz aveludada nos fascina e seduz. Nessa cultuada sitcom (que acompanhava o dia a dia dos funcionários de uma estação AM novaiorquina), somos convidados a conhecer o homem por trás da voz - um poço de mau-caratismo e vaidade, nesse caso. A série encontrou em Bill McNeal o personagem perfeito para levar o nonsense e o absurdo até às últimas consequências - com resultados cômicos mais que memoráveis. No curso do quarto ano do programa Phil Hartman (ex-Saturday Night Live) foi assassinado pela mulher instável psicologicamente e com problemas de depressão. A série não conseguiu sobreviver ao trauma e durou apenas mais uma temporada.

Uma frase inesquecível: "Sempre chega aquele momento em qualquer amizade quando você vai dizer: - Eu nunca fui com a sua cara. Fora daqui!"

8) Selina Meyer (Julia Louis-Dreyfus) - Veep / 2012-

Já na abertura de cada episódio, ficamos sabendo que a senadora Meyer quase conseguiu a indicação democrata para concorrer à presidência dos EUA, mas acabou ficando com a vaga de vice. É mais um personagem inesquecível que engrossa o cordão daqueles que tiram humor do mau-caratismo e da incompetência. Sempre destilando veneno, despreza profundamente o seu time de assessores, toda a classe política de Washington, os eleitores, a mídia e até a própria filha. Mostra uma Julia Louis-Dreyfus em plena forma para a comédia e, ao contrário de seus colegas de elenco em Seinfeld, conseguiu livrar-se do fantasma da Elaine Benes que vivia na fantástica série. Selina não é Elaine, é a bruxa má da Casa Branca.

Uma frase inesquecível: "Eu sou a única presidente que faz xixi sentada desde Roosevelt! Este será o meu legado!"

7) Jack Donaghy e Tracy Jordan (Alec Baldwin e Tracy Morgan) - 30 Rock / 2006-2013

O CEO misógino, republicano e coxinha da rede de TV NBC (Baldwin) e o ator de filmes policiais em decadência (Morgan) gravitam em torno da protagonista da série, a produtora executiva de um programa semanal de variedades e humor (Tina Fey). Dois personagens que não poderiam ser mais diferentes, mas que se completam; duas escolas de humor opostas mas que convergem. Assistir aos dois (juntos ou separados) é um prazer e uma surpresa. A maneira como arriscam-se ao ultrapassar todas as linhas do bom senso em nome da comédia é inspiradora. São dois gigantes em ação.

6) Sheldon Cooper (Jim Parsons) - The Big Bang Theory / 2007 -

Poderia ser um robô ou um alienígena, mas é apenas um doutor em física; uma mente genial, porém, incapaz de compreender os mais básicos protocolos da vida em sociedade. Metódico, irritante e intransigente, o nerd Sheldon é também aquele por quem mais nos afeiçoamos dentre todo o (ótimo) elenco da série. Mistura de Dr. Smith (de Perdidos no Espaço) com Spock (de Star Trek) é o papel da vida de Parsons. Me pergunto sempre que outro personagem ele poderia assumir quando o programa terminar... Só mesmo um robô ou um alienígena.

Uma frase inesquecível: "Talvez você não perceba, mas eu tenho dificuldade em navegar por certos aspectos da vida cotidiana. Coisas como entender quando é sarcasmo, fingir que tenho algum interesse pelas outras pessoas, não poder falar sobre trens tanto quanto eu gostaria. É exaustivo!"

5) Homer Simpson (voz de Dan Castellaneta) - The Simpsons / 1989 -

O patriarca do clã de criaturas amarelas, no ar há 28 anos, não poderia faltar nessa lista. Homer é uma crítica contundente ao cidadão norte americano médio - sem sonhos, sem perspectiva, sem horizontes; um loser imbecilizado que nem se dá conta da própria situação. É melancólico na mesma medida em que tem humor, daí sua beleza. Não por acaso, foi batizado com o mesmo nome de um dos personagens do romance de Nathanael West, O Dia do Gafanhoto - que seria o dia do troco, o momento em que o marginalizado se revolta e toma uma atitude contra tudo e todos que o oprimem (ou que o ignoram). Se Homer for capaz de alcançar esse despertar, no último episódio da última temporada da série ele certamente explodiria a usina nuclear de Springfield.

Uma frase inesquecível: "Crianças... vocês deram o melhor de si e falharam miseravelmente. A lição que aprendemos aí é: Nem tente!"

4) Valerie Cherish (Lisa Kudrow) - The Comeback / 2005 e 2015

Lisa Kudrow pós-Friends, deu de dez a zero na Lisa Kudrow em Friends (que já era bem engraçada). A saga da atriz de sitcom, famosa nos anos 80, que volta à ativa em um papel secundário em uma nova série é coisa de gênio. Ao levantar questões como o envelhecimento e a vaidade, aborda o quão cruel pode ser o mercado de trabalho (em qualquer profissão) para uma mulher que já passou dos 40 anos. E pior, para promover ainda mais seu retorno aos sets de filmagem, ela assina o contrato para um reality show; uma equipe passa a acompanhá-la 24 horas por dia, registrando o novo trabalho e sua vida pessoal. É nesse conflito entre essência e aparência que a série dá o seu grande pulo do gato cômico. Na ficção ou na realidade ninguém é de fato aquilo que mostra - principalmente Valerie.

Uma frase inesquecível: "Você tem que ser quem você é... com suas verrugas e tudo mais."

3) Maxwell Smart (Don Adams) - Agente 86 / 1965 - 1970

No auge da guerra fria, Mel Brooks deu ao mundo essa irresistível paródia dos filmes de espionagem. O atrapalhado Agente 86 é como se fosse o irmão de James Bond que os pais deram para adoção na tenra infância; desistiram dele! Com gadgets mais divertidos que os do espião britânico (como o cone do silêncio) adiantou até a invenção do celular, com um telefone sem fio camuflado no sapato. Muito mais pelo acaso que por alguma capacidade intelectual, Maxwell Smart salvou o planeta muitas vezes de ser destruído pela agência terrorista K.A.O.S.  

Uma frase inesquecível: "O velho truque do equipamento de comunicação escondido no pão francês!... Já caí como um patinho nesse truque duas vezes só esse mês."

2) Jerry, George, Elaine e Kramer (Jerry Seinfeld, Jason Alexander, Julia Louis-Dreyfus e Michael Richards) - Seinfeld / 1989-1998

Apontada por muitos como a melhor sitcom de todos os tempos, ficou conhecida como uma série sobre nada. É impossível desmembrar o ensemble de talento formado pelos quatro protagonistas: é a equipe mais azeitada já vista na televisão. Cada um com personalidade e defeitos próprios (muitos defeitos), nos episódios em que se aventuravam juntos por caminhos sempre inusitados, mostravam uma excelência na comédia que apenas os grandes alcançam. Nas últimas temporadas não dava mais para saber quem era o principal e quem era o coadjuvante. Os grupos de episódios em que George acaba provocando a morte da noiva ou aqueles em que Jerry e George convencem uma emissora a produzir um programa baseado na vida dos quatro são impagáveis. Se existisse justiça no mundo era uma série para nunca ter terminado.

1) Michael Scott (Steve Carell) - The Office / 2005 - 2013

O número um da lista é pura anarquia e surrealismo. Ninguém nunca ousou ir tão longe como Steve Carell no retrato que fez desse mesquinho, ridículo e ingênuo gerente de uma empresa que vende suplementos para escritórios. O nonsense nunca foi tratado com tanta verdade. Os maiores absurdos soam naturais quando ditos pelo personagem - que trata seus funcionários como a audiência de um espetáculo de stand up permanente e infindável. Michael Scott não existe - e é exatamente por isso que se tornou tão real.

Uma frase inesquecível: "Toby é do departamento de RH - o que significa, tecnicamente, que ele trabalha para a diretoria. Então, ele não é parte da nossa família aqui no escritório. Além disso, ele é divorciado... Então, na verdade, ele não é parte nem da família dele."

Foi o que ela disse!

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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