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09/05/2017 | domtotal.com

Todas as cores de Sense8

Mais que uma série de TV, Sense8 é um manifesto político.

Os protagonistas: um por todos e todos por um.
Os protagonistas: um por todos e todos por um. (Reprodução)

Por Alexis Parrot*

O que poderiam ter em comum uma blogueira transexual lésbica de San Francisco, um policial de Chicago que vê a profissão como uma missão de fé, um ladrãozinho barato de Berlim, uma alta executiva da Coréia do Sul, uma farmacêutica de Mumbai prestes a se casar por obrigação, uma dj islandesa vivendo em Londres, um ator gay de filmes de ação mexicano e um motorista de van em Nairóbi?

A princípio, nada. Mas o cérebro fervilhante das irmãs Wachowski - que já deram ao mundo o grande clássico da ficção científica Matrix (o primeiro filme apenas, que fique claro), mas também uma grande e pretensiosa bobagem, a versão live action de Speed Racer - escolheu ligar mental, emocional e psiquicamente esses oito personagens para contar uma fábula moderna que o planeta estava precisando assistir. Eles são o que se decidiu chamar de sensates e isso é Sense8, com a segunda temporada lançada sexta-feira passada pelo Netflix.

O assombro causado pela primeira temporada nos deixou mesmo com sede para assistir a essa segunda. Mas como manter o frescor da grande novidade que foi, de fato, a primeira temporada daí para frente?

Para aqueles que ainda não estão familiarizados com a trama da série, é necessária uma breve introdução.

Funciona assim: os sensates são o que são porque descendem de uma mutação genética do homo sapiens, o homo sensorium. Aqueles com essa característica de DNA que nascem no mesmo dia passam imediatamente a estar em conexão entre si, o que forma um cluster (grupo). Os oito protagonistas da série entram "em rede" já na vida adulta; o catalizador é a morte de uma outra sensate (Daryl Hannah, com caracterização amedrontadora -  a ideia era que ela parecesse uma espécie de anjo, mas resultou em uma nova versão da famosa lenda urbana da loira do banheiro, porém, com uma dose exagerada de botox). 

Digo "em rede", porque é isso mesmo. Os sensates são uma metáfora bem urdida da internet e da visão globalizadora do mundo de hoje, sem fronteiras - mesmo que alguns, como o Estado de Israel e a cavalgadura chamada Donald Trump, ainda insistam na construção de muros, erigidos em nome do preconceito e do separatismo. É contra esse e todos os outros tipos de fascismo que a série cospe na cara e não se acovarda. Mais que uma série de TV, Sense8 é um manifesto político.

Mas o que fazer quando a novidade não é mais novidade? A nova temporada não consegue igualar o impacto da primeira. Virou um thriller policial e algo que já estamos cansados de ver nos filmes e séries sobre mutantes da Marvel. Mas ao contrário dos pupilos do Professor Xavier, cada um com seu poder único, aqui todo mundo tem o mesmo poder. É como se todos os X-Men fossem o Wolverine - com a diferença que os sensates não são o Wolverine.

Mas a mensagem é a mesma, lá e cá. Os humanos rejeitam e temem o diferente e tanto mutantes quanto sensates são perseguidos e devem ser destruídos. Quem faz as vezes da Gestapo da hora é a OPB (Organização de Preservação Biológica), uma entidade secreta cujos princípios de pesquisa iniciais, com o tempo, foram sendo deturpados, até que acabasse virando um órgão criminoso - malcomparando, mais ou menos como aconteceu com o PMDB.  

Essa segunda temporada tem mais relevância política que dramatúrgica, muito embora a produção continue sendo uma verdadeira operação de guerra, com equipes atuando em 8 países, situados em 5 continentes, simultaneamente. As gravações são feitas por um diretor em cada país, cada qual com sua equipe; o que, imagino, torna a série um verdadeiro pesadelo e desafio constante para os continuístas. Mas nisso, de coordenar diversas ações simultâneas a partir de locações diferentes, as Wachowski são craques - vide Matrix - e esse é um dos pontos altos da realização do programa. Elas realmente fazem a mágica acontecer.  

Por outro lado, a obrigação da mensagem política onipresente pode ser uma armadilha. A militância desbragada e as bandeiras levantadas a todo momento - bandeiras muito importantes, é necessário que se diga - acabam levando o texto para a borda do precipício perigosíssimo da pieguice.

Frases como: "Sua vida é definida pelo sistema ou pela forma como você desafia o sistema"; "A coragem é contagiosa" ou "Rótulos são o oposto da compreensão", flertam muito intimamente com a praga da literatura de auto-ajuda. Poderiam ter sido confeccionadas pelo clichê ambulante que é o Padre Fábio de Melo ou o seu irmão gêmeo secular, o outro clichê ambulante, mais insuportável ainda, Gabriel Chalita. (Será que eles fazem parte de um cluster de sensates?)

E no meio do caldeirão multicultural que é a série, a luta contra a homofobia ou a transfobia; a defesa do direito ao culto religioso; a denúncia dos cartéis que exploram a água ou os remédios contra a AIDS como se fossem commodities na África; a crítica contra a mídia paparazzi ou sobre o direito à privacidade na rede, entre outras questões de ordem, ficam parecendo ser tudo a mesma coisa - quando não são. E essa simplificação pode ser um pecado mortal. 

No final, a série lembra muito as célebres campanhas da Benetton e suas "united colors", verdadeiro hit na década de 90, criadas pelo publicitário italiano Oliviero Toscani. Com imagens sintéticas de grande impacto e coloridíssimas, apresentavam-se também como um manifesto político contra o estado geral das coisas e um libelo a favor da diversidade. Porém, não podemos nos esquecer que eram feitas - do princípio ao fim - para vender as roupas fabricadas pelo Berlusconi.

Estão programadas mais três temporadas de Sense8 - e não acredito que haja fôlego para tanto. Mas torçamos para que tudo de novo e entusiasmante que marcou seu primeiro ano não acabe por naufragar e que possamos nos lembrar dela no futuro como algo além de uma propaganda colorida a favor dos direitos humanos ou mais um filme do Wolverine - sem o Wolverine.

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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