Cultura

29/05/2017 | domtotal.com

Amor é a mãe de todas as mães

Partindo da morte da mãe do próprio protagonista, livro leva uma série de incursões pelo Brasil e mundo afora em torno do tema 'amor de mãe'.

Muitas das cenas de “Amor de mãe” são pura invenção. Outras não.
Muitas das cenas de “Amor de mãe” são pura invenção. Outras não. (Leonardo Rattes/Ascom Sesab)

Por Ricardo Soares*

Podem me chamar de piegas mas o amor é a mãe de todas as mães. Não há amor maior que amor de mãe. Talvez por ter sempre acreditado nisso é que inconscientemente eu tenha escrito um romance curto com esse nome que será lançado essa semana em São Paulo e pela internet pelo país afora.

Partindo da morte da mãe do próprio protagonista o livro leva uma série de incursões pelo Brasil e mundo afora em torno do tema “amor de mãe”. Não é livro de auto-ajuda, nem livro que oferece soluções compensatórias a quem tem ou não culpa em relação a suas mães. É um livro que de debruça sobre os amores de muitas mães sobre os seus filhos pois mesmo se bandidos eles forem serão para sempre os filhos diletos de suas mães. Ou será que você nunca viu imagens das mães sofridas em sofridas filas de presídios para esperarem – após serem submetidas a revistas humilhantes-  a hora de verem os seus filhos?

Muitas das cenas de “Amor de mãe” são pura invenção. Outras não. Um trecho abaixo foi inspirado em um caso real. Tirem as conclusões que quiserem. Mas a minha é que não existe amor maior que amor de mãe.

"Quero ter assim a oportunidade de lhes contar então de uma mãe que encontrei no sul da Colômbia defronte a uma tosca pousada em Los Pozos. Pequetita, gordinha,moletom e sandálias baratas nos pés, não mais que 35 anos,ela se aproximou de mim sob uma cobertura de folhas de zinco numa manhã chuvosa perguntando se eu podia ajudá-la a encontrar sua filha.

Como poderia eu, brasileiro perdido naquele canto do mapa, ajudá-la a encontrar a filha sumida? A senhorinha disse que havia me observado no dia anterior conversando com guerrilheiros que dominavam aquela região e viu que até trocamos apertos de mão e dividimos uma cerveja venezuelana.Logo eu, brasileiro, perdido, mestiço e desconectado era conhecido da guerrilha e podia ajudá-la sim no seu intuito de ter sua filha de volta. Era o que ela supunha.

Dois anos antes sua filha havia se embrenhado mata adentro com guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e nunca mais havia dado notícia. Isso havia sido no outro extremo do país e essa mãe gordinha e ansiosa , essa mãe de sandálias baratas e choro incontido,percorria longa viagem país adentro tentando ter noticias de sua filha, provável guerrilheira das Farc.

Assim, por armadilhas postas pelo destino,essa mãe me implorava que eu chegasse perto de um dos meus “amigos guerrilheiros”e perguntasse por sua filha.Dizia isso fungando e tirando do bolso de sua pobre calça um saco plástico transparente com documentos e fotos antigas da filha que deixou o lar e parecia uma moreninha simpática e risonha envolta na aura da adolescência esperançosa da qual teriam se aproveitado os guerrilheiros para seqüestrá-la contra sua vontade.

Estávamos protegidos da chuva que não parava sob esse toldo simples de folhas de zinco e enquanto conversávamos uma vaca era esquartejada bem ali na nossa frente. Os pedaços maiores eram colocados à venda num carrinho de mão quando parou bem em frente de nós um jipe azulado de onde desceu Mariana, guerrilheira de alta patente que eu já conhecera de outras charlas. Mariana ia comprar um pedaço daquelas carnes esquartejadas quando me viu e saudou. Respondi a seu aceno e lhe chamei. Veio até mim conformada, parecia terpressa. Com pressa também lhe apresentei a mãe aflita que aos prantos repetiu para a guerrilheira a história que havia me contado.

Mariana, apesar de contrariada,ouviu com atenção o relato da mãe aflita. Ao final pegou a foto da menina sumida, observou bem e anotou o nome dela. Prometia pra mais tarde uma posição a respeito do assunto. Guardou a anotação num bolso do uniforme, pegou seu enorme pedaço de carne, entrou no jipe e partiu. Eu tomava agora um Pony Malta bem docinho e olhava impassível para a cara daquela mãe chorosa. Estendi-lhe um lenço de papel e ela mal e mal enxugou os olhos enquanto uma chuva pesada desabou sobre todos nós". (...)

Ricardo Soares é escritor, diretor de tv,roteirista e jornalista. Dirigiu 12 documentários e essa semana publica seu oitavo livro , “Amor de mãe”.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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