Religião

22/03/2018 | domtotal.com

O futuro da democracia

O desrespeito pela soberania popular mata a democracia.

O desrespeito pela soberania popular mata a democracia.
O desrespeito pela soberania popular mata a democracia.

Por Élio Gasda*

Difícil falar do futuro de alguma coisa que ainda não existe no presente. O que é democracia? Os gregos consideravam como democracia somente as formas de governo que garantiam aos cidadãos a isonomia, ou seja, a igualdade perante a lei; a isotomia, o direito de todos os cidadãos para exercer qualquer função; e a isegoria: direito igual de falar.

A democracia é uma relação, um modo de estar com os outros na cidade. Ser democrata é defender que, para além de todas as diferenças de raças, de culturas, de orientação sexual, de religião, participamos de igual modo da sociedade. A política deve tornar cada pessoa uma cidadã. Somente governos democráticos governam no interesse dos governados.

Nosso passado não é de democracia, mas de oligarquia. A história da relação dos poderes no Brasil se resume na divisão entre Casagrande e Senzala: os donos do capital e os donos da força de trabalho, explorados pelos primeiros. Qualquer mudança nessa estrutura é muito difícil, pois o poder econômico sequestrou o Estado. Desde os tempos do Brasil colônia as instituições funcionam como instrumentos de defesa dos privilegiados. A normalidade democrática é uma exceção. O sentimento antipopular das elites é tão antigo quanto os conquistadores, e se manteve com os colonizadores, com as Capitanias Hereditárias, com a corte imperial e com a República. A solidariedade com o pobre é nula. A elite tem aversão ao povo (Justo Veríssimo), é autoritária e discriminatória (“Que horas ela Volta”?). Preferem o cheiro dos cavalos ao dos pobres (General Figueiredo).

A elite despreza a democracia. Estamos muito longe de ser uma república federativa democrática. É ingenuidade imaginar que essa elite irá solucionar uma crise que ela mesma criou. Dona das instituições, apropriou-se do Estado para utilizá-lo como instrumento das práticas concentradoras de riqueza. Privatizou a política para controlar seus instrumentos: eleições, Parlamento, Judiciário, Executivo. Quando alguma estratégia não funciona, atropela-se o Estado de Direito. Herdamos uma política que além de corrompida, é autoritária.

Não devemos temer os governos, que podemos substituir, e sim os poderes privados que exercem influência sobre eles. Política é uma relação de poder. O conceito de poder nao se restringe ao poder político. Tratemos do poder econômico e administrativo, assim como o poder de persuasão que se manifesta através da religião, da educação e da mídia. Os donos do poder não são os políticos. O foco do poder não está na política, mas na economia. Quem comanda a sociedade é o complexo financeiro-empresarial. Sua tática é apoiar quem lhes convém e destruir quem lhes estorva. Sua ideologia é a acumulação de riqueza. O capitalismo neoliberal é global, mas atua regionalmente. O controle do Estado é essencial para que o sistema funcione a favor dos interesses do capital financeiro. Os políticos foram substituídos por ‘profissionais da política’, funcionários do mercado. Os serviçais dos donos do poder não querem que o povo decida sobre o destino de seu país.

O setor de telecomunicações comprova a captura do Estado pelo capital. O Brasil é um dos países com maior concentração da mídia no mundo, seis famílias controlam o setor. A imprensa sempre se opôs aos interesses populares, apoiou todos os golpes de Estado e enriqueceu com a ditadura. Os grandes meios de comunicação não são órgãos de imprensa cujo objeto é a notícia. Eles são grandes conglomerados econômicos que integram o complexo financeiro-empresarial que comanda o poder. A redemocratização nunca chegou à imprensa.

Os brasileiros não são iguais perante a Lei. O sistema de justiça é resultado de uma articulação das elites. As instituições jurídicas funcionam como instrumentos de defesa da Casagrande. No estado policial, os tribunais são peças chave deste controle.  Não se trata de uma patologia. É sistêmico. O controle do poder econômico depende do controle do Direito. A usurpação requer o verniz da legalidade. Quando o poder Judiciário substitui a política, a democracia acaba. O desrespeito pela soberania popular mata a democracia (João Paulo II, Centesimus annus, n.44).

Existem duas opções: reinventar a politica, ou submeter-se à ditadura do complexo financeiro-industrial geradora da violência e do desastre social. Os cristãos não podem se dar ao luxo de perder a esperança. É preciso estar na política por uma única razão: defender a dignidade humana, a justiça e o bem comum (Gaudium et spes, n. 76). O compromisso político é uma expressão privilegiada de viver o Evangelho. A esperança é o estilo cristão de ver a realidade. Ela é resistência que antecipa de algo bom, algo novo. É essa esperança que mobiliza os grupos de Fé e Politica espalhados por todo o Brasil: “Vocês, organizações dos excluídos e tantas organizações de outros setores da sociedade, são chamados a revitalizar, a refundar as democracias que estão passando por uma verdadeira crise” (Papa Francisco). Precisamos começar tudo de novo?

*Élio Gasda: Doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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