Religião

22/03/2018 | domtotal.com

Reflexões sobre budismo e homossexualidade


Casamento homossexual budista em Taiwan entre Fish Huang e You Ya-ting
Casamento homossexual budista em Taiwan entre Fish Huang e You Ya-ting (AFP)

Um dos perigos da maneira ocidental de pensar está no seu modo juridicista de ler a vida. Busca-se, constantemente um parâmetro fixo e rígido, uma lei (lex), com o qual se possam medir as ações e determinar se são certas ou erradas. Algumas coisas, contudo, não devem ser vistas exclusivamente por essa ótica, como é o caso da sexualidade.

Foco de grandes discussões na atualidade, a homossexualidade entra no julgamento da sociedade como bom ou mal tendo como referência uma espécie de lei natural que seria fundada num desejo divino que disporia o humano a se inclinar a determinados atos, ensinados pela natureza a “todos” os animais, como a união entre macho e fêmea. O problema dessa interpretação está não só numa visão jurisdicista, mas também no equívoco sobre a conexão exata entre razão prática e vontade divina, no desprezo do papel da sociedade na formação da sexualidade, no desconhecimento da homossexualidade animal, na influência da própria cultura para a formulação de um tal sistema filosófico etc.

Algumas religiosidades se apoiam numa ideia de lei natural para estabelecer seus juízos condenatórios sobre a homossexualidade. Outras espiritualidades, contudo, estruturam-se sobre diferentes bases, como é o caso do budismo, que não possui regras, mas princípios.  A ética budista não se pergunta exatamente sobre o certo ou errado tomando uma lei como régua. Antes, irá olhar para o que motiva a ação e assim perguntar em que medida aquilo traz ou não sofrimento, o que constitui ajuda ou não, o que é destrutivo ou edificante.

No que tange a sexualidade, os monges budistas devem guardar o celibato. Já os leigos, por sua vez, guiam-se pelo princípio de que devem se abster dos comportamentos “impróprios”. A avaliação do que seria impróprio, entretanto, passa por certo crivo: 1) fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem; 2) quais as consequências em quem recebe e em quem pratica a ação; 3) conduz ou afasta para o nirvana (ou nibbana), que consiste numa espécie de libertação do indivíduo, paz espiritual, superação do ego. Tendo esses critérios em mente é que se pode avaliar se algo é impróprio ou não.

Nesse sentido, a homossexualidade na acepção budista não é boa ou má, como também a heterossexualidade. O que vai determinar o valor de sua prática é o espírito com o qual ela é vivenciada. Se a relação é dotada de reciprocidade e carinho mútuo, não gera prejuízo a nenhuma das partes e levar à libertação pessoal (o que é próprio do amor, que pede certa dose de esvaziar-se de si), então aquela vivência será benéfica e construtiva. Mesmo o Buda não tendo se pronunciado sobre a união homoafetiva, pode-se chegar pelo sua doutrina de que a homossexualidade não é problema para o ser humano.

O fundamental para o budismo é o conhecimento da verdade, a iluminação, a sabedoria. Isso não tem nada a ver com a orientação sexual. Taxar a prática homossexual como imprópria não é inerente ao budismo, mas à cultura onde cada qual está inserido. A cultura se comporta como uma lente com a qual experimentamos o mundo, mas ela não é a verdade das coisas. E a absolutização da cultura atenta contra um dos selos do Dharma, que pode ser resumido como "Todos os fenômenos são destituídos de essências". A condenação da homossexualidade é cultural e tão somente e nada tem a ver com o caminho de iluminação que nos leva a sair de nós mesmos, esvaziar-nos.

TAGS




Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outras Notícias

Não há outras notícias com as tags relacionadas.